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domingo, 17 de novembro de 2024

Carapaças

Há tempos me deprimo negligente com as excentricidades. Não ando, não noto, não contamino. Seiva infrutífera. Solstício do silêncio. 

Muitos desses sinais passaram, voltaram?, e eu recluso. Mergulhado na pretensão de ser esquecido, parti-me apavorado como quem recusa as carapaças. Mas não há como fugir desse aspecto de canceriano sem-lar, o voo uma hora desmonta – o baque uma hora se cansa.

Muito além do signo aquático, há também esse meio-termo que devora lama, estado larval que se desenvolve sob a arquitetura das coisas mortas. Viver menos, viver como bem entender, mesmo que isso custe a desaprovação de Netuno – e ainda assim carregar a marca de ser passageiro em qualquer pele.

Não faz muito tempo que sonhei com Besouros, mas não me recordo de mais nada. Eram alguns que não impressionavam, não tão coloridos, não tão catastróficos. E o fascínio me arquejou. Dessa noite para cá me perdi na admiração e não registrei a maioria. Alguns quiseram ser fotografados, outros optaram por me observar. 

Não sou tecnicista ou tenho a literatura como um emprego, a obrigação de acordar e escrever não é minha. Sou movido por paixões, e por isso falho. Por isso me atrevo a trabalhar em um novo livro dedicado a esses insetos: coleópteros. Entre tantas coisas, já fui comparado a um inseto. Se recebi esse elogio, é a minha vez de viver uma elegia.

Muito em breve as poesias ganharão asas: ÉLITRO.











sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Imperativo

modere o lapso,

a crueza,

o estopim;

não seja impertinente

aos pronomes,

trate-os acima

da lisura

conforme o bem querer;

não macule

o estardalhaço.


modere a impotência,

a caligrafia,

o desvario;

bendiga o inconcepto,

a coação,

o meio-termo,

a casualidade

da sentença;

nada de preceituar

o reforço

exasperado.


não se anuncie

ferino,

entusiasmado,

primaveril,

o logos foi dissecado

em desajuste

aos polímeros. 


o repuxo,

o entrave,

o trono,

sáfaros

circunstam

a toxidade 

das vênulas

e vinícolas,

há debilidade

provinciana

harmonizando

a debandada.


aos vendilhões de juízo,

renda-se

pela cristalinidade 

do espalmo.


espetaculosa,

movediça,

infame carolice

que lhe espeta

o apanágio;

persiga

irregularidades. 


exceda-se 

gentio,

contagioso,

avulso;

desassocie-se

do mundaréu

por uma vida.


sê arquivista,

salvaguarde o embaraço,

atulhe o pó,

transcorra ordinário

nas imperfeições

avolumadas;

pregresso,

histriônico,

acético,

perscrute

a afasia do rito;

7 gritos

pela manhã.


sofra,

e não convém

o contraponto.



_
Foto: Zona rural de Capivari. BB, 2022.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

[Xilogravura] Sartei de banda

 


Xilogravura digitalizada em 300dpi, clique para melhor visualização.

Nome: Bruno Bossolan (Brasil, 1988)

Título: Sartei de banda

Técnica: Xilogravura em placa de mdf. Impressão com tinta tipográfica em papel artesanal de fabricação própria feito com flores secas do Ponto de Cultura Casa Rosa, localizado em Capivari/SP.

Dimensão: 9cm de diâmetro

Ano: 2022


Sartei de banda é uma expressão caipira utilizada para se esquivar da responsabilidade ou de qualquer situação que envolva o locutor. Sartar (saltar) refere-se a fugir/esquivar e banda (grupo) é a ênfase ou pode também ser entendida como um superlativo, quase que um fugir com tudo. Além disso, também replicamos o ditado quando observamos um grupo de capivaras pulando no rio Capivari. Veja abaixo a explicação do capivariano Divaldo Datti (1929-2016). 


¹ "1940 - AH, PULEI ÁGUA; mais adiante se transformaria em PULEI FOGO.

Tempos depois em: AH! SALTEI, que nós, capivarianos, usando rotacismo, dizíamos: AH! SARTEI. Ainda mais para frente: SARTEI, SARTEI FOGO.    

Todas essas expressões, como se deduz, excluindo ou eximindo de responsabilidade ou de participação aqueles que as dissessem. Seria como se alguém falasse: "ah! isso não é comigo, estou fora disso", "num tô nem aí", etc.

Nhá Barbina* aplaudida artista caipira da rádio paulista e televisão, em especial do "Viva a Noite", da TV-S, quase que indiscutivelmente a pessoa que mais tenha se utilizado dos ditados SARTEI! ou SARTEI FOGO!, que foram muito populares em nossa cidade. Capivarianos acima de meia-idade haverão de se lembrar deles todos e muito bem.

A propósito, ainda em 1985 ouvimos Nhá Barbina usar constantemente do SARTEI, SARTEI FOGO! em suas apresentações pela televisão."


¹ DATTI, Divaldo. Não durma no ponto. São Paulo: Pannartz, 1987.

* Nhá Barbina foi o nome artístico de Conceição Joana da Fonseca (1915-1994).

[Monotipia] Calipiá



Monotipia digitalizada em 300dpi, clique para melhor visualização.

Nome: Bruno Bossolan (Brasil, 1988)

Título: Calipiá

Técnica: Monotipia em folha de papel alumínio com tinta tipográfica. Desenho feito com cotonetes, espeto para churrasco e algodão. Impressão em papel sulfite A4 90g.

Dimensão: 21cm x 29,7cm

Ano: 2022


Calipiá e/ou Calipêro é como o caipira de Capivari chama uma plantação de eucaliptos. Lembro-me que na tenra infância eu sofria por causa da sinusite. Minha mãe me levou a um Benzedeiro e ele disse: "vai num calipiá, pega foia, faz um chá e deixa o menino inalá". Recordo-me de debruçar com uma toalha sobre o dorso em um canecão e inalar aquele doce do eucalipto, nunca mais tive crises de sinusite. Essa passagem me constituiu a personalidade: eucaliptos que adoçam as manhãs.

Ao Benzedeiro que não me recordo o nome, mas guardo no peito por afeição, a minha singela homenagem com essa monotipia sem valor comercial, mas com o apego às raízes: O Caipira é cosmopolita!