Era um mundo no qual o único recurso se findava em fazer pesquisas na biblioteca municipal. Pra cima e pra baixo com o caderno, primeiro o rascunho na última folha para não comprometer a lição copiada do quadro (ou ditada - tempos sombrios!), depois passar a limpo no papel almaço e entregar impecável para a professora. Paciência para pesquisar, paciência para escrever. Paciência para andar até a Biblioteca, paciência para suportar o tratamento quase proibitivo e de vigilância: abrir um livro em silêncio absoluto para não se comprometer com o pecado, mas permitido até a primeira mordida para desajeitados.
De família simples, quase paupérrima, as coisas começaram a melhorar em minha família quando meu pai, então marceneiro, foi "aceito" para fazer trabalhos ao nicho da classe média da cidade, na metade dos anos 90. Os tempos sempre foram difíceis, apertados. Da infância eu quero distância, tenho horrores ao que ainda não me sucumbiu na memória. Nunca fui a uma excursão escolar. Não havia dinheiro para lazer, apenas a tão esperada garrafa de Itubaína e alguns doces, como aquele de pedaços coloridos de gelatina no creme de leite. Então, em movimentos de reclusão, me coloquei na posição de não merecedor dos passeios. E aquelas fotos de formatura, de campos verdes com as crianças, de balanços e brinquedos, de rios e piscinas, de confraternizações e pique-esconde, não tenho nenhuma.
Quando os recursos são escassos, as oportunidades não se apresentam, são hipopótamos famintos em uma cordilheira de assombros. Éramos assombrados, hipopótamos em solo seco, vazios em uma cordilheira de semelhantes.
Nessa época, e me lembro bem, vários vendedores passavam pela escola e entravam nas salas para falar sobre as maravilhosas enciclopédias. Se de fato existe encantador de serpentes, deve ser como um bom vendedor dizendo sobre a Barsa para um bando de crianças pobres (ou como Blacaman, o bom vendedor de milagres). Era o delírio, estávamos entorpecidos! Queria uma de qualquer jeito, mas qualquer jeito não põe comida na mesa. Tem que ser do jeito certo. Tem que exceder o jeito e atingir o merecimento. E para mim aquela coleção de livros era como o céu para o arrependido, não havia se não o desejo e uma ânsia incurável. Alguns colegas compraram, eram várias caixas para carregar, datas que iam a perder de vista em calhamaços de cheques.
Meu pai usava os cheques para fazer a compra mensal, qualquer coisa fora disso era impensável. Era tudo contado, até mesmo o valor se mantinha fixo, precisasse de algo ou não. Éramos, eu e meu irmão, crianças que corriam no barro... mas alguma coisa nos atiçava a esse mundo de privilégios: comprar um livro.
Fiquei doente. Literalmente doente. Minha mãe costurava em casa, o que mais pagava era fechar capa de colchão. Não sei como se deu, mas ela trabalhou muito nesse período (e aqui nem falo sobre o tempo cuidando da casa e de nós). E quando percebemos, a mágica - que para nós, os pobres, nada é além de sacrifício - estava feita. Uma caixa de papelão na mesa da cozinha, daquela mesa de pés redondos e finos, de uma mesa quase circular com a fórmica listrada em vários tons marrons, estava sobre ela um inextinguível sonho.
Não senti o peso, mas a sensação de abrir o pacote era como o inacreditável diante do enfermo. Aos poucos fui me curando dos não-merecimentos, aos poucos li e reli inúmeras vezes o nome do meu primeiro livro: Dicionário Brasileiro GLOBO, edição de 1995.
Nas primeiras páginas havia alguns desenhos dedicados à biologia, partes do corpo. Cansei de enumerar os ossos, encontrar nomes engraçados.
_ Veja, mãe, martelo no ouvido! O pai usa o martelo para pregar.
Meu entretenimento era folhear aquele dicionário imenso. Não havia forro na cozinha e no banheiro, o portão era de madeira, meus amigos imaginários no quintal se deliciavam com minha alegria, e na nossa sala estava o imponderado, altivo, que era guardado toda vez na caixa original como forma de se manter um tesouro. Era o meu tesouro, o meu acesso para o mundo dos significados. Foi nessa lida, sem noção dos tremores da vida, que escolhi ser um obstetra das palavras. Amanhecer em cada instância como a vez primeira.
Passados 30 anos, e meus cabelos na imparável empreitada de se mostrarem grisalhos, pude montar uma biblioteca particular para pesquisas, a Biblioteca Caipirice. Não tenho mais que atravessar a cidade para receber os olhares de julgamento na biblioteca municipal. Não tenho mais que ter o capricho de quem nunca errou na vida. Permito-me ler um livro com um copo de Itubaína ao lado, até mesmo com alguns quitutes.
São aproximadamente 700 livros que compõem minha biblioteca onde era a sala de casa, num espaço de 6m². Tenho uma seção destinada a autores capivarianos e livros sobre Capivari, aos pouquinhos compro o que acho indispensável. Quase 90% dos livros é de segunda mão, livros comprados de sebos e até mesmos catados em caçambas de entulho, e desbastes de bibliotecas.
Toda vez que abro um livro, que sento e me comprometo a ler, a escrever, instintivamente me ecoa nos ouvidos o barulho da máquina de costura de minha mãe. É o sacrifício para que algum sangue me valha. É a aposta que tenho contra a morte, ainda merecerei.
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Foto: Biblioteca Caipirice. BB, 2024.
