domingo, 15 de dezembro de 2024

Gênio de Sêr

No dia de ontem, 14 de dezembro, estávamos - Maria Augusta e eu - na Feira do Livro e Autores Sorocabanos (FLAUS), no SESC Sorocaba, e calhou de estar alocada nessa unidade do SESC a exposição NISE – A Revolução pelo Afeto. Agradável surpresa.

Ficamos com a banquinha de livros da Casa Rosa na FLAUS até às 16h, e combinamos de voltar à Capivari antes de escurecer porque a Rodovia do Açúcar (SP 308) é muito mais perigosa à noite, principalmente com chuva. Há treminhões de cana, gente que não respeita a faixa única e todo o tipo de perigo em uma rodovia mal administrada. Praticamente toda semana tem acidente fatal nessa rodovia e não é de hoje que as pessoas clamam pela duplicação e outras melhorias.

Foi a primeira vez que participamos de uma feira de livros. Achei bem legal, conhecemos pessoas bacanas que estudam assuntos interessantes (e que particularmente me interessam), como o escritor e jornalista Sérgio Coelho de Oliveira, que escreve sobre o Tropeirismo e entrevistou em Capivari, em 1986, Braz Biaggio (1902-1995)* - pai do João do Braz (do açougue), e mantém um museu particular em Sorocaba com itens que remontam a história do tropeirismo. Um verdadeiro entusiasta da memória popular.

Vendemos 4 ou 5 livros, mais do que o esperado. Na verdade, foi a Guta quem me convenceu para ir, não gosto de aparecer. Fotos e filmagens me causam arrepios. Às vezes sou caipira, bicho bugre (como era chamado em casa). Parafraseando o bigodudo do Nietzsche: “Caipira, demasiado caipira”. Nesse quesito, sou pupilo de Dalton Trevisan (que perda inestimável para a nossa literatura!) e do Raduan Nassar, que poucas vezes foram fotografados.

Tenho pra mim, e isso independe da ocasião, que o instagramável maculou as relações e tornou a experiência pessoal muito instantânea, quase que só pela redenção de um retrato, e não por um compartilhamento imagético da prosa.

Foi uma experiência bacana, provavelmente participaremos de outras feiras – principalmente pela nossa linha de publicações ser sobre História, Literatura e Filosofia. Agradeço ao amigo Carlos Carvalho Cavalheiro, organizador da FLAUS, pelo convite.


*De acordo com o livro A Ronda das Ruas – A história nas ruas de Capivari, de Virginia Bastos de Mattos (1915-2017), Braz Biaggio “nasceu em 6/6/1902. Casou-se com Joana Martins Biaggio, e tiveram 4 filhos. Foi tropeiro durante toda a sua vida. Participou das festividades da cidade e de suas romarias. Faleceu em 2/7/1995”. 


Foto: Banquinha de livro da Casa Rosa na FLAUS. BB, 2024.
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Passamos de supetão pela exposição, quase uma maratona. Muito bonita. Muito bem elaborada. Gostei bastante da “ala” destinada ao O Livro Vermelho, do Jung. E talvez seja por isso que escrevo este texto. Não vou falar sobre a Nise, não sou digno de escrever sobre essa mulher colossal. Só vou reproduzir aqui uma frase dela que está em destaque em um dos painéis: 

Não sou uma senhora filantrópica, de jeito nenhum, sou uma pessoa curiosa do abismo, embora tenha consciência de que o abismo é tão profundo que eu apenas passo nas bordas. Então pensei em utilizar as atividades como meio de expressão da problemática interna dos doentes”.

Tenho mania de associar tudo o que sinto. É quase instantâneo. Percorre-me, na velocidade do ânimo, a espontânea vibração para compreender. Ou quase, similar aos pormenores de um criador: Solve et Coagula.  

Como faço referência e empilho satisfação pelo entendimento? Não sei. Talvez saiba, mas os símbolos de outros momentos, genuínos e primitivos, grudaram-me na ideia e estão latentes na trama – diálogo – que mantenho com as realidades que me são apresentadas.

Uma besta é caracterizada pelo corpo, pelo comportamento, pelo conjunto de afirmações ou pelo gradil que a reforça? É o que sou quando encontro correlações, grasnado corporizado. É como se os códigos de cada imagem fossem armazenados em um caleidoscópio e, ao rever um símbolo, ele me arremessa contra as projeções, renascendo em mim, mas como eu, a besta em busca de alimento.

Na meninice, quando minha mãe ainda estava viva, ela dizia que eu tinha um “gênio forte”. Cresci com aquilo. Só fui compreender depois de muita vida orquestrada: sou volátil. E isso serviu para complicar ainda mais a vida. Cada um com a sua cruz... a minha é um mosaico.

Esta introdução confusa, mas nem tanto, é para dizer que uma imagem em específico me causou frisson. Não consegui tirar foto de toda a prancha impressa, apenas do recorte do desenho. Não faço ideia de qual livro foi retirada a imagem, passei a manhã do dia 15 procurando, mas sem sucesso. Enfim, o interesse aqui é por esta imagem:

Foto da expo. NISE - A Revolução pelo Afeto (SESC Sorocaba, dez/24)

De imediato a figura de A Cuca (1924), de minha conterrânea Tarsila do Amaral, saltou aos olhos. Veja só, de uma capivara sentada a um totem de capivara. Fantástico! São as águas dos córgos que me conduzem a essa interpretação. Canceriano ao estilo Barata-d’água ou Pitu, sou conduzido por entre rios, pontes e overdrives (salve, Chico Science e Nação Zumbi!). A figura da exposição, nomeada de Gênio do Sêr, me atiçou mais do que um tormento: Da lama ao caos, do caos a lama, um homem roubado nunca se engana.

Foto da expo. Tarsila Popular (MASP, jul/19)

E já em casa, nesta manhã meio esquisita de sol que arde, coisa que deve anteceder uma pancada de chuva, ainda estava no abismo das referências. Parte de mim começou a se embrenhar nalgumas imagens que eu, sem nenhum compromisso com a estética, mantenho à exaustação. Sempre estou numa noite acesa. Não vou enumerar e dizer os motivos que me levaram a relacionar, mas essas figuras dizem muito sobre os aspectos que trago na memória, de ontem ou de outros tempos, vidas, coisa que o valha. Estupidez de quem sente.

O segundo pintor de quem me lembrei foi do Goya. Indispensável Francisco de Goya que, acometido pela surdez, pintou El Aquelarre (Sabá das Bruxas). É uma obra icônica, mas também perturbadora no sentido de nos inquietar. Talvez Goya estivesse ouvindo a si, e a liberdade é um ritual de ocasos.

El Aquelarre (1798), Francisco de Goya.

Depois disso, como uma criança que solta o chinelo na enxurrada para correr atrás dele, caiu em mim a sequência de referências. Não em ordem, em espasmos simultâneos. A mais profunda, certamente, foi a dança entre a morte e o louco. E isso me deixa satisfeito. Porque vou morrer. E aí então, neste exato momento, de absorção de uma ideia para o encerramento do cansaço, estarei, enfim, eco no universo, silêncio no declive.

 "O Tolo" da série "Dança da Morte de Basiléia" (esta edição impressa é de 1789), Gravura de Matthew (Matthäus) Merian e impressão de Jacques-Antony Chovin.

Ecate Triforma (1987), Alberto Abate.

 The Soothsayer (2014), Andrzej Mazur.

Sem título (s/d), Ángela Burón.


Estudo para The Wave (1907), Carlos Schwabe.

 Alchemist (1910), Josef Váchal.

Ainda é domingo e o touro é valente. O touro, São Lucas (médico), não descansa para o café, intervém como auxiliador. Como Nise o fez e se dedicou a vida toda. Que mulher incrível!

Viver no abismo é sacrificar muita coisa. Como eu ainda não estou lá, mas miro com vontade, e talvez seja essa a minha verdade, vou tomar um café para remediar o meu sacrifício, a minha loucura: ser aprazível ao social.

domingo, 17 de novembro de 2024

Carapaças

Há tempos me deprimo negligente com as excentricidades. Não ando, não noto, não contamino. Seiva infrutífera. Solstício do silêncio. 

Muitos desses sinais passaram, voltaram?, e eu recluso. Mergulhado na pretensão de ser esquecido, parti-me apavorado como quem recusa as carapaças. Mas não há como fugir desse aspecto de canceriano sem-lar, o voo uma hora desmonta – o baque uma hora se cansa.

Muito além do signo aquático, há também esse meio-termo que devora lama, estado larval que se desenvolve sob a arquitetura das coisas mortas. Viver menos, viver como bem entender, mesmo que isso custe a desaprovação de Netuno – e ainda assim carregar a marca de ser passageiro em qualquer pele.

Não faz muito tempo que sonhei com Besouros, mas não me recordo de mais nada. Eram alguns que não impressionavam, não tão coloridos, não tão catastróficos. E o fascínio me arquejou. Dessa noite para cá me perdi na admiração e não registrei a maioria. Alguns quiseram ser fotografados, outros optaram por me observar. 

Não sou tecnicista ou tenho a literatura como um emprego, a obrigação de acordar e escrever não é minha. Sou movido por paixões, e por isso falho. Por isso me atrevo a trabalhar em um novo livro dedicado a esses insetos: coleópteros. Entre tantas coisas, já fui comparado a um inseto. Se recebi esse elogio, é a minha vez de viver uma elegia.

Muito em breve as poesias ganharão asas: ÉLITRO.











sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Imperativo

modere o lapso,

a crueza,

o estopim;

não seja impertinente

aos pronomes,

trate-os acima

da lisura

conforme o bem querer;

não macule

o estardalhaço.


modere a impotência,

a caligrafia,

o desvario;

bendiga o inconcepto,

a coação,

o meio-termo,

a casualidade

da sentença;

nada de preceituar

o reforço

exasperado.


não se anuncie

ferino,

entusiasmado,

primaveril,

o logos foi dissecado

em desajuste

aos polímeros. 


o repuxo,

o entrave,

o trono,

sáfaros

circunstam

a toxidade 

das vênulas

e vinícolas,

há debilidade

provinciana

harmonizando

a debandada.


aos vendilhões de juízo,

renda-se

pela cristalinidade 

do espalmo.


espetaculosa,

movediça,

infame carolice

que lhe espeta

o apanágio;

persiga

irregularidades. 


exceda-se 

gentio,

contagioso,

avulso;

desassocie-se

do mundaréu

por uma vida.


sê arquivista,

salvaguarde o embaraço,

atulhe o pó,

transcorra ordinário

nas imperfeições

avolumadas;

pregresso,

histriônico,

acético,

perscrute

a afasia do rito;

7 gritos

pela manhã.


sofra,

e não convém

o contraponto.



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Foto: Zona rural de Capivari. BB, 2022.

sábado, 26 de outubro de 2024

Biblioteca Caipirice

Era um mundo no qual o único recurso se findava em fazer pesquisas na biblioteca municipal. Pra cima e pra baixo com o caderno, primeiro o rascunho na última folha para não comprometer a lição copiada do quadro (ou ditada - tempos sombrios!), depois passar a limpo no papel almaço e entregar impecável para a professora. Paciência para pesquisar, paciência para escrever. Paciência para andar até a Biblioteca, paciência para suportar o tratamento quase proibitivo e de vigilância: abrir um livro em silêncio absoluto para não se comprometer com o pecado, mas permitido até a primeira mordida para desajeitados.
De família simples, quase paupérrima, as coisas começaram a melhorar em minha família quando meu pai, então marceneiro, foi "aceito" para fazer trabalhos ao nicho da classe média da cidade, na metade dos anos 90. Os tempos sempre foram difíceis, apertados. Da infância eu quero distância, tenho horrores ao que ainda não me sucumbiu na memória. Nunca fui a uma excursão escolar. Não havia dinheiro para lazer, apenas a tão esperada garrafa de Itubaína e alguns doces, como aquele de pedaços coloridos de gelatina no creme de leite. Então, em movimentos de reclusão, me coloquei na posição de não merecedor dos passeios. E aquelas fotos de formatura, de campos verdes com as crianças, de balanços e brinquedos, de rios e piscinas, de confraternizações e pique-esconde, não tenho nenhuma.
Quando os recursos são escassos, as oportunidades não se apresentam, são hipopótamos famintos em uma cordilheira de assombros. Éramos assombrados, hipopótamos em solo seco, vazios em uma cordilheira de semelhantes. 
Nessa época, e me lembro bem, vários vendedores passavam pela escola e entravam nas salas para falar sobre as maravilhosas enciclopédias. Se de fato existe encantador de serpentes, deve ser como um bom vendedor dizendo sobre a Barsa para um bando de crianças pobres (ou como Blacaman, o bom vendedor de milagres). Era o delírio, estávamos entorpecidos! Queria uma de qualquer jeito, mas qualquer jeito não põe comida na mesa. Tem que ser do jeito certo. Tem que exceder o jeito e atingir o merecimento. E para mim aquela coleção de livros era como o céu para o arrependido, não havia se não o desejo e uma ânsia incurável. Alguns colegas compraram, eram várias caixas para carregar, datas que iam a perder de vista em calhamaços de cheques.
Meu pai usava os cheques para fazer a compra mensal, qualquer coisa fora disso era impensável. Era tudo contado, até mesmo o valor se mantinha fixo, precisasse de algo ou não. Éramos, eu e meu irmão, crianças que corriam no barro... mas alguma coisa nos atiçava a esse mundo de privilégios: comprar um livro.
Fiquei doente. Literalmente doente. Minha mãe costurava em casa, o que mais pagava era fechar capa de colchão. Não sei como se deu, mas ela trabalhou muito nesse período (e aqui nem falo sobre o tempo cuidando da casa e de nós). E quando percebemos, a mágica - que para nós, os pobres, nada é além de sacrifício - estava feita. Uma caixa de papelão na mesa da cozinha, daquela mesa de pés redondos e finos, de uma mesa quase circular com a fórmica listrada em vários tons marrons, estava sobre ela um inextinguível sonho. 
Não senti o peso, mas a sensação de abrir o pacote era como o inacreditável diante do enfermo. Aos poucos fui me curando dos não-merecimentos, aos poucos li e reli inúmeras vezes o nome do meu primeiro livro: Dicionário Brasileiro GLOBO, edição de 1995. 
Nas primeiras páginas havia alguns desenhos dedicados à biologia, partes do corpo. Cansei de enumerar os ossos, encontrar nomes engraçados. 
_ Veja, mãe, martelo no ouvido! O pai usa o martelo para pregar. 
Meu entretenimento era folhear aquele dicionário imenso. Não havia forro na cozinha e no banheiro, o portão era de madeira, meus amigos imaginários no quintal se deliciavam com minha alegria, e na nossa sala estava o imponderado, altivo, que era guardado toda vez na caixa original como forma de se manter um tesouro. Era o meu tesouro, o meu acesso para o mundo dos significados. Foi nessa lida, sem noção dos tremores da vida, que escolhi ser um obstetra das palavras. Amanhecer em cada instância como a vez primeira.
Passados 30 anos, e meus cabelos na imparável empreitada de se mostrarem grisalhos, pude montar uma biblioteca particular para pesquisas, a Biblioteca Caipirice. Não tenho mais que atravessar a cidade para receber os olhares de julgamento na biblioteca municipal. Não tenho mais que ter o capricho de quem nunca errou na vida. Permito-me ler um livro com um copo de Itubaína ao lado, até mesmo com alguns quitutes. 
São aproximadamente 700 livros que compõem minha biblioteca onde era a sala de casa, num espaço de 6m². Tenho uma seção destinada a autores capivarianos e livros sobre Capivari, aos pouquinhos compro o que acho indispensável. Quase 90% dos livros é de segunda mão, livros comprados de sebos e até mesmos catados em caçambas de entulho, e desbastes de bibliotecas.
Toda vez que abro um livro, que sento e me comprometo a ler, a escrever, instintivamente me ecoa nos ouvidos o barulho da máquina de costura de minha mãe. É o sacrifício para que algum sangue me valha. É a aposta que tenho contra a morte, ainda merecerei.

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Foto: Biblioteca Caipirice. BB, 2024.



sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

[Xilogravura] Sartei de banda

 


Xilogravura digitalizada em 300dpi, clique para melhor visualização.

Nome: Bruno Bossolan (Brasil, 1988)

Título: Sartei de banda

Técnica: Xilogravura em placa de mdf. Impressão com tinta tipográfica em papel artesanal de fabricação própria feito com flores secas do Ponto de Cultura Casa Rosa, localizado em Capivari/SP.

Dimensão: 9cm de diâmetro

Ano: 2022


Sartei de banda é uma expressão caipira utilizada para se esquivar da responsabilidade ou de qualquer situação que envolva o locutor. Sartar (saltar) refere-se a fugir/esquivar e banda (grupo) é a ênfase ou pode também ser entendida como um superlativo, quase que um fugir com tudo. Além disso, também replicamos o ditado quando observamos um grupo de capivaras pulando no rio Capivari. Veja abaixo a explicação do capivariano Divaldo Datti (1929-2016). 


¹ "1940 - AH, PULEI ÁGUA; mais adiante se transformaria em PULEI FOGO.

Tempos depois em: AH! SALTEI, que nós, capivarianos, usando rotacismo, dizíamos: AH! SARTEI. Ainda mais para frente: SARTEI, SARTEI FOGO.    

Todas essas expressões, como se deduz, excluindo ou eximindo de responsabilidade ou de participação aqueles que as dissessem. Seria como se alguém falasse: "ah! isso não é comigo, estou fora disso", "num tô nem aí", etc.

Nhá Barbina* aplaudida artista caipira da rádio paulista e televisão, em especial do "Viva a Noite", da TV-S, quase que indiscutivelmente a pessoa que mais tenha se utilizado dos ditados SARTEI! ou SARTEI FOGO!, que foram muito populares em nossa cidade. Capivarianos acima de meia-idade haverão de se lembrar deles todos e muito bem.

A propósito, ainda em 1985 ouvimos Nhá Barbina usar constantemente do SARTEI, SARTEI FOGO! em suas apresentações pela televisão."


¹ DATTI, Divaldo. Não durma no ponto. São Paulo: Pannartz, 1987.

* Nhá Barbina foi o nome artístico de Conceição Joana da Fonseca (1915-1994).

[Monotipia] Calipiá



Monotipia digitalizada em 300dpi, clique para melhor visualização.

Nome: Bruno Bossolan (Brasil, 1988)

Título: Calipiá

Técnica: Monotipia em folha de papel alumínio com tinta tipográfica. Desenho feito com cotonetes, espeto para churrasco e algodão. Impressão em papel sulfite A4 90g.

Dimensão: 21cm x 29,7cm

Ano: 2022


Calipiá e/ou Calipêro é como o caipira de Capivari chama uma plantação de eucaliptos. Lembro-me que na tenra infância eu sofria por causa da sinusite. Minha mãe me levou a um Benzedeiro e ele disse: "vai num calipiá, pega foia, faz um chá e deixa o menino inalá". Recordo-me de debruçar com uma toalha sobre o dorso em um canecão e inalar aquele doce do eucalipto, nunca mais tive crises de sinusite. Essa passagem me constituiu a personalidade: eucaliptos que adoçam as manhãs.

Ao Benzedeiro que não me recordo o nome, mas guardo no peito por afeição, a minha singela homenagem com essa monotipia sem valor comercial, mas com o apego às raízes: O Caipira é cosmopolita!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Crônica Ceifa [2020, e-book - Editora Lobo Azul]

Escreve Manilius em suas Astronômicas: nec dulcia carmina quaeras: ornari res ipsa negat. “Não procures poema agradável: a matéria mesma recusa o ornamento”. Poesia é uma experiência de alteridade & alteridade é território onde culmina Vênus, a amorosa, mas também onde levanta-se Saturno, o negro, o frio, o distante. Saturno é ainda a melancolia, o luto por nossa própria morte na ausência de sentido, como observou Walter Benjamin. A partir do século XV, tornou-se comum ver-se uma foice nas mãos de Saturno, antes rei de uma idade dourada, agora um esqueleto. A foice é tempo, colheita & morte, atributo de deuses agrários, os das sementeiras, os das mutilações, os da vida dos grãos & das condenações dos grãos à morte. Todas as lâminas curvas são lunares & assim a foice foi associada à via indireta, ao caminho secreto para o mundo noturno, inferior & interior. Entre celtas parece ter existido o uso do ritual de uma pequena foice dourada para colheita de visco. Nela, o semicírculo lunar da lâmina, geralmente crescente, encontra-se invertido, voltado para baixo: a relação entre Luna & Saturno não é a do crescente, mas a da lua minguante, hecateana & sacrificial. Abrir-te ao meio invocando a besta. Nestas páginas de Crônica Ceifa surge com alguma recorrência a imagem do corvo, ave alquímica da nigredo, da primeira matéria ou da matéria regressiva da putrefactio. Este pássaro adquire aqui valor venéfico & silencioso do escorpião, quando “as manhãs brilham nos arames farpados” para “ferroar-te os pés numa campina reclusa”. Crônica Ceifa faz esquecer a monotonia da matéria.


Apresentação de Rubens Zárate (escritor, antropólogo e historiador).
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Para adquirir Crônica Ceifa basta clicar na imagem abaixo.