Escreve Manilius em suas Astronômicas: nec dulcia carmina quaeras: ornari res ipsa negat. “Não procures poema agradável: a matéria mesma recusa o ornamento”. Poesia é uma experiência de alteridade & alteridade é território onde culmina Vênus, a amorosa, mas também onde levanta-se Saturno, o negro, o frio, o distante. Saturno é ainda a melancolia, o luto por nossa própria morte na ausência de sentido, como observou Walter Benjamin. A partir do século XV, tornou-se comum ver-se uma foice nas mãos de Saturno, antes rei de uma idade dourada, agora um esqueleto. A foice é tempo, colheita & morte, atributo de deuses agrários, os das sementeiras, os das mutilações, os da vida dos grãos & das condenações dos grãos à morte. Todas as lâminas curvas são lunares & assim a foice foi associada à via indireta, ao caminho secreto para o mundo noturno, inferior & interior. Entre celtas parece ter existido o uso do ritual de uma pequena foice dourada para colheita de visco. Nela, o semicírculo lunar da lâmina, geralmente crescente, encontra-se invertido, voltado para baixo: a relação entre Luna & Saturno não é a do crescente, mas a da lua minguante, hecateana & sacrificial. Abrir-te ao meio invocando a besta. Nestas páginas de Crônica Ceifa surge com alguma recorrência a imagem do corvo, ave alquímica da nigredo, da primeira matéria ou da matéria regressiva da putrefactio. Este pássaro adquire aqui valor venéfico & silencioso do escorpião, quando “as manhãs brilham nos arames farpados” para “ferroar-te os pés numa campina reclusa”. Crônica Ceifa faz esquecer a monotonia da matéria.

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